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CondutaFontes citadasPosologia

    Retatrutida efeitos colaterais: dados dos estudos TRIUMPH

    16 de outubro de 2026

    7 minutos de leitura

    Os efeitos colaterais mais frequentes da retatrutida (em inglês, retatrutide) nos ensaios clínicos são gastrointestinais — náusea, diarreia, constipação e vômito —, dose-dependentes e em geral leves a moderados; o programa de fase 3 TRIUMPH acrescentou um achado que não era esperado: disestesia (alteração da sensibilidade da pele), relatada em até 12,5% dos participantes no TRIUMPH-1 e em até 20,9% no TRIUMPH-4. A seguir, os números de cada estudo, o que se sabe sobre frequência cardíaca, vesícula, pâncreas e fígado, e por que a titulação faz diferença.

    Importante: a retatrutida é um medicamento experimental e não está aprovada em nenhum país, inclusive no Brasil. Os dados abaixo referem-se exclusivamente a participantes de ensaios clínicos controlados, com produto farmacêutico padronizado e monitoramento médico. Eles não se aplicam a produtos vendidos fora desse contexto.

    Retatrutida efeitos colaterais: visão geral dos estudos

    A retatrutida é um agonista triplo dos receptores de GIP, GLP-1 e glucagon, administrado por via subcutânea uma vez por semana. O perfil de segurança vem de três fontes principais:

    • Fase 2 em obesidade (Jastreboff et al., NEJM 2023): 338 adultos, 48 semanas, doses de 1 a 12 mg.
    • Fase 2 em diabetes tipo 2 (Rosenstock et al., Lancet 2023): 281 participantes, comparação com placebo e dulaglutida 1,5 mg.
    • Fase 3 TRIUMPH: TRIUMPH-1 (obesidade sem diabetes, 2.339 participantes, 80 semanas; publicado no NEJM em 29/09/2026), TRIUMPH-2 (obesidade com DM2, 1.152 participantes, 80 semanas; publicado no Lancet), TRIUMPH-3 (obesidade grave com doença cardiovascular estabelecida, 1.949 participantes, 80 semanas; resultados divulgados pela Lilly em 23/07/2026) e TRIUMPH-4 (obesidade com osteoartrite de joelho, 445 participantes, 68 semanas; resultados divulgados em 11/12/2025).

    Para o contexto de eficácia e mecanismo, veja o resumo do estudo de fase 2 da retatrutida publicado no NEJM.

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    Eventos gastrointestinais e descontinuação por dose (fase 3)

    Nos estudos TRIUMPH, todos os participantes iniciaram com 2 mg semanais e subiram a dose a cada quatro semanas até a dose-alvo. A tabela reúne os percentuais divulgados para cada braço versus placebo.

    Estudo / braçoNáuseaDiarreiaVômitoConstipaçãoDisestesiaDescontinuação por EA
    TRIUMPH-1 4 / 9 / 12 mg28,6 / 38,4 / 42,4%25,2 / 34,1 / 32,0%10,6 / 22,8 / 25,3%23,8 / 25,9 / 26,1%5,1 / 12,3 / 12,5%4,1 / 6,9 / 11,3%
    TRIUMPH-1 placebo14,8%13,5%4,8%10,9%0,9%4,9%
    TRIUMPH-2 (DM2) 4 / 9 / 12 mg13,7 / 20,8 / 28,0%27,4 / 33,5 / 33,6%5,5 / 10,2 / 15,7%14,0 / 16,2 / 16,8%4,5 / 5,6 / 7,3%3,8 / 11,6 / 7,7%
    TRIUMPH-2 placebo8,0%13,2%4,2%9,4%0,7%4,9%
    TRIUMPH-3 (DCV) 9 / 12 mg21,7 / 22,4%30,1 / 24,4%n.d.n.d.6,4 / 6,4%9,8 / 13,5%
    TRIUMPH-3 placebo5,8%8,7%n.d.n.d.1,3%4,8%
    TRIUMPH-4 (OA joelho) 9 / 12 mg38,1 / 43,2%34,7 / 33,1%20,4 / 20,9%21,8 / 25,0%8,8 / 20,9%12,2 / 18,2%
    TRIUMPH-4 placebo10,7%13,4%0,0%8,7%0,7%4,0%

    EA: evento adverso. n.d.: não divulgado no comunicado. Fontes: comunicados da Eli Lilly (TRIUMPH-1, 21/05/2026; TRIUMPH-2 e -3, 23/07/2026; TRIUMPH-2, 29/09/2026; TRIUMPH-4, 11/12/2025) e Bellido et al., Lancet 2026.

    Três leituras práticas da tabela:

    • Dose-dependência clara para náusea e vômito: no TRIUMPH-1, o vômito passou de 10,6% (4 mg) para 25,3% (12 mg).
    • Abandono por evento adverso chegou a 11,3% (TRIUMPH-1) e 18,2% (TRIUMPH-4) na dose de 12 mg. No TRIUMPH-4, a Lilly informou que essas taxas se correlacionaram com o IMC basal e incluíram descontinuações por perda de peso percebida como excessiva.
    • No TRIUMPH-2, o artigo do Lancet relatou também hipotensão mais frequente com retatrutida (1%, 5% e 6% nas doses de 4, 9 e 12 mg vs. menos de 1% no placebo).

    Como referência indireta (estudos diferentes, populações diferentes, sem comparação direta), a descontinuação por eventos adversos com tirzepatida no SURMOUNT-1 foi de 4,3%, 7,1% e 6,2% nas doses de 5, 10 e 15 mg, versus 2,6% com placebo. Para a comparação entre as moléculas, veja retatrutida vs. tirzepatida vs. semaglutida.

    Retatrutida e disestesia: o achado novo da fase 3

    A disestesia — descrita como sensação anormal ao toque, ardor ou alteração de sensibilidade na pele — foi relatada em todos os estudos TRIUMPH divulgados, sempre acima do placebo e com tendência dose-dependente (5,1% a 12,5% no TRIUMPH-1; 8,8% e 20,9% no TRIUMPH-4). Segundo a Lilly, os eventos foram em geral leves a moderados, a maioria resolveu durante o tratamento e raramente levaram à interrupção.

    No estudo de fase 2 em obesidade, os registros do clinicaltrials.gov já mostravam sinais nessa direção, em números pequenos: alodinia em 4 de 62 participantes (6,5%) no braço de 12 mg (nenhum caso no placebo) e hiperestesia em casos isolados. O mecanismo não está estabelecido.

    Retatrutida e frequência cardíaca

    O aumento de frequência cardíaca é um efeito esperado da classe dos agonistas de GLP-1 e foi descrito com retatrutida desde a fase 2: no NEJM 2023, os autores relatam aumentos dose-dependentes da frequência cardíaca, com pico na 24ª semana e declínio posterior. Os comunicados de fase 3 não detalharam a magnitude dessa variação; os valores do TRIUMPH-1 constam do artigo completo do NEJM.

    Quanto a eventos cardíacos, os resultados do estudo de fase 2 depositados no clinicaltrials.gov registram eventos graves isolados — um prolongamento de QT (braço de 12 mg) e um caso de insuficiência cardíaca (braço de 8 mg) —, sem causalidade estabelecida e em amostra pequena. O TRIUMPH-3, conduzido em pacientes com doença cardiovascular estabelecida, não teve dados de arritmia detalhados no comunicado de julho de 2026.

    Vesícula, pâncreas e fígado

    • Vesícula biliar: na fase 2 em obesidade, houve um caso grave de colecistite aguda (braço de 8 mg com início em 4 mg), tratado com colecistectomia laparoscópica. Colelitíase é efeito conhecido da classe, associada à perda rápida de peso; os comunicados de fase 3 não informaram incidência.
    • Pâncreas: um caso grave de pancreatite aguda no braço de 12 mg da fase 2 (1 de 62). Elevações de lipase e amilase apareceram em vários braços, inclusive placebo.
    • Fígado: a subanálise de fase 2 em esteatose hepática (Sanyal et al., Nat Med 2024) não identificou sinal de hepatotoxicidade até 48 semanas; ao contrário, a gordura hepática caiu até 82,4% com 12 mg em 24 semanas.

    Como a titulação reduz as reações adversas da retatrutida

    O dado mais direto vem da fase 2 em obesidade, que testou a mesma dose de manutenção com dois pontos de partida. Pelos resultados depositados no clinicaltrials.gov:

    Braço (fase 2, obesidade)NáuseaVômito
    Placebo (n=70)11,4%1,4%
    4 mg, início 2 mg (n=33)18,2%12,1%
    4 mg, início 4 mg (n=33)36,4%12,1%
    8 mg, início 2 mg (n=35)17,1%5,7%
    8 mg, início 4 mg (n=35)60,0%25,7%
    12 mg, início 2 mg (n=62)45,2%19,4%

    Os autores concluíram que os eventos gastrointestinais foram parcialmente mitigados com dose inicial menor (2 mg vs. 4 mg). O mesmo padrão apareceu na fase 2 em DM2: eventos gastrointestinais em 35% dos participantes com retatrutida, variando de 13% (0,5 mg) a 50% no braço de 8 mg com escalonamento rápido. Por isso, todo o programa de fase 3 usou início em 2 mg com aumentos a cada quatro semanas. O esquema dos protocolos está detalhado em doses e titulação da retatrutida nos estudos.

    Fora dos ensaios clínicos, o risco é outro

    Os percentuais acima valem para um produto fabricado sob boas práticas, com dose conhecida, critérios de inclusão e exclusão e acompanhamento médico. Produtos vendidos como "retatrutida" fora de ensaio clínico não passaram por avaliação de nenhuma agência reguladora: não há garantia de identidade, concentração, esterilidade ou ausência de contaminantes, e eventos adversos não são acompanhados nem notificados de forma sistemática. Não é possível extrapolar o perfil de segurança dos estudos para esses produtos. Veja os riscos das canetas emagrecedoras irregulares e a situação da retatrutida na Anvisa.

    Perguntas frequentes

    Qual o efeito colateral mais comum da retatrutida?

    Náusea, seguida de diarreia, constipação e vômito. No TRIUMPH-1, a náusea ocorreu em 28,6% a 42,4% dos participantes, conforme a dose, contra 14,8% com placebo.

    A retatrutida aumenta a frequência cardíaca?

    Sim. Na fase 2, houve aumento dose-dependente, com pico em 24 semanas e redução depois. A relevância clínica de longo prazo ainda está em avaliação.

    O que é a disestesia relatada com a retatrutida?

    Uma alteração da sensibilidade da pele (ardor, sensação anormal ao toque). Foi mais frequente com doses maiores, em geral leve a moderada, e a maioria dos casos resolveu durante o tratamento.

    Quantas pessoas pararam o tratamento por efeitos colaterais?

    Na dose de 12 mg, 11,3% no TRIUMPH-1, 7,7% no TRIUMPH-2, 13,5% no TRIUMPH-3 e 18,2% no TRIUMPH-4, contra 4% a 4,9% com placebo.

    A retatrutida já pode ser usada fora de estudos?

    Não. Ela não tem aprovação em nenhum país. A Lilly informou que pretende submeter o pedido à FDA no primeiro trimestre de 2027. Acompanhe em quando a retatrutida chega ao Brasil.

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    Referências

    • Jastreboff AM, Kaplan LM, Frías JP, et al. Triple-hormone-receptor agonist retatrutide for obesity — a phase 2 trial. N Engl J Med. 2023;389(6):514-526. doi:10.1056/NEJMoa2301972.
    • Rosenstock J, Frias J, Jastreboff AM, et al. Retatrutide, a GIP, GLP-1 and glucagon receptor agonist, for people with type 2 diabetes: a randomised, double-blind, placebo and active-controlled, parallel-group, phase 2 trial conducted in the USA. Lancet. 2023;402(10401):529-544. doi:10.1016/S0140-6736(23)01053-X.
    • Jastreboff AM, Kaplan LM, Davies MJ, et al. Retatrutide, a triple hormone receptor agonist, for treatment of obesity. N Engl J Med. Publicado online em 29 set 2026. doi:10.1056/NEJMoa2604169.
    • Bellido V, le Roux CW, Ekinci EI, et al. Retatrutide in adults with obesity and type 2 diabetes (TRIUMPH-2): a double-blind, parallel-group, randomised, placebo-controlled, phase 3 trial. Lancet. 2026;408(10563):1455-1472. doi:10.1016/S0140-6736(26)01861-1.
    • Bajaj HS, Welch M, Shah P, et al. Efficacy and safety of retatrutide in people with type 2 diabetes and inadequate glycaemic control with diet and exercise (TRANSCEND-T2D-1). Lancet. 2026;407(10546):2402-2413. doi:10.1016/S0140-6736(26)00967-0.
    • Sanyal AJ, et al. Triple hormone receptor agonist retatrutide for metabolic dysfunction-associated steatotic liver disease: a randomized phase 2a trial. Nat Med. 2024;30(7):2037-2048.
    • Jastreboff AM, Aronne LJ, Ahmad NN, et al. Tirzepatide once weekly for the treatment of obesity. N Engl J Med. 2022;387(3):205-216. doi:10.1056/NEJMoa2206038.
    • ClinicalTrials.gov. NCT04881760 — A Study of LY3437943 in Participants Who Have Obesity or Are Overweight (resultados depositados).
    • Eli Lilly and Company. Lilly's triple agonist, retatrutide, delivered weight loss of up to an average of 71.2 lbs along with substantial relief from osteoarthritis pain in first successful Phase 3 trial. Comunicado, 11 dez 2025.
    • Eli Lilly and Company. Lilly's triple agonist, retatrutide, delivered powerful weight loss in pivotal Phase 3 obesity trial. Comunicado, 21 mai 2026.
    • Eli Lilly and Company. Lilly's triple agonist, retatrutide, successful in two additional Phase 3 obesity trials, delivering significant improvements in weight and A1C. Comunicado, 23 jul 2026.
    • Eli Lilly and Company. Lilly's triple agonist, retatrutide, delivered substantial weight loss and A1C reduction, underscoring its potential promise for people with obesity and type 2 diabetes. Comunicado, 29 set 2026.

    Conteúdo destinado a profissionais de saúde. Informações atualizadas em outubro de 2026.



    Autor do conteúdo

    Equipe MedCode


    Referências

    Públicação Oficial


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