Retatrutida efeitos colaterais: dados dos estudos TRIUMPH
16 de outubro de 2026
7 minutos de leitura
Os efeitos colaterais mais frequentes da retatrutida (em inglês, retatrutide) nos ensaios clínicos são gastrointestinais — náusea, diarreia, constipação e vômito —, dose-dependentes e em geral leves a moderados; o programa de fase 3 TRIUMPH acrescentou um achado que não era esperado: disestesia (alteração da sensibilidade da pele), relatada em até 12,5% dos participantes no TRIUMPH-1 e em até 20,9% no TRIUMPH-4. A seguir, os números de cada estudo, o que se sabe sobre frequência cardíaca, vesícula, pâncreas e fígado, e por que a titulação faz diferença.
Importante: a retatrutida é um medicamento experimental e não está aprovada em nenhum país, inclusive no Brasil. Os dados abaixo referem-se exclusivamente a participantes de ensaios clínicos controlados, com produto farmacêutico padronizado e monitoramento médico. Eles não se aplicam a produtos vendidos fora desse contexto.
A retatrutida é um agonista triplo dos receptores de GIP, GLP-1 e glucagon, administrado por via subcutânea uma vez por semana. O perfil de segurança vem de três fontes principais:
Para o contexto de eficácia e mecanismo, veja o resumo do estudo de fase 2 da retatrutida publicado no NEJM.
Nos estudos TRIUMPH, todos os participantes iniciaram com 2 mg semanais e subiram a dose a cada quatro semanas até a dose-alvo. A tabela reúne os percentuais divulgados para cada braço versus placebo.
| Estudo / braço | Náusea | Diarreia | Vômito | Constipação | Disestesia | Descontinuação por EA |
|---|---|---|---|---|---|---|
| TRIUMPH-1 4 / 9 / 12 mg | 28,6 / 38,4 / 42,4% | 25,2 / 34,1 / 32,0% | 10,6 / 22,8 / 25,3% | 23,8 / 25,9 / 26,1% | 5,1 / 12,3 / 12,5% | 4,1 / 6,9 / 11,3% |
| TRIUMPH-1 placebo | 14,8% | 13,5% | 4,8% | 10,9% | 0,9% | 4,9% |
| TRIUMPH-2 (DM2) 4 / 9 / 12 mg | 13,7 / 20,8 / 28,0% | 27,4 / 33,5 / 33,6% | 5,5 / 10,2 / 15,7% | 14,0 / 16,2 / 16,8% | 4,5 / 5,6 / 7,3% | 3,8 / 11,6 / 7,7% |
| TRIUMPH-2 placebo | 8,0% | 13,2% | 4,2% | 9,4% | 0,7% | 4,9% |
| TRIUMPH-3 (DCV) 9 / 12 mg | 21,7 / 22,4% | 30,1 / 24,4% | n.d. | n.d. | 6,4 / 6,4% | 9,8 / 13,5% |
| TRIUMPH-3 placebo | 5,8% | 8,7% | n.d. | n.d. | 1,3% | 4,8% |
| TRIUMPH-4 (OA joelho) 9 / 12 mg | 38,1 / 43,2% | 34,7 / 33,1% | 20,4 / 20,9% | 21,8 / 25,0% | 8,8 / 20,9% | 12,2 / 18,2% |
| TRIUMPH-4 placebo | 10,7% | 13,4% | 0,0% | 8,7% | 0,7% | 4,0% |
EA: evento adverso. n.d.: não divulgado no comunicado. Fontes: comunicados da Eli Lilly (TRIUMPH-1, 21/05/2026; TRIUMPH-2 e -3, 23/07/2026; TRIUMPH-2, 29/09/2026; TRIUMPH-4, 11/12/2025) e Bellido et al., Lancet 2026.
Três leituras práticas da tabela:
Como referência indireta (estudos diferentes, populações diferentes, sem comparação direta), a descontinuação por eventos adversos com tirzepatida no SURMOUNT-1 foi de 4,3%, 7,1% e 6,2% nas doses de 5, 10 e 15 mg, versus 2,6% com placebo. Para a comparação entre as moléculas, veja retatrutida vs. tirzepatida vs. semaglutida.
A disestesia — descrita como sensação anormal ao toque, ardor ou alteração de sensibilidade na pele — foi relatada em todos os estudos TRIUMPH divulgados, sempre acima do placebo e com tendência dose-dependente (5,1% a 12,5% no TRIUMPH-1; 8,8% e 20,9% no TRIUMPH-4). Segundo a Lilly, os eventos foram em geral leves a moderados, a maioria resolveu durante o tratamento e raramente levaram à interrupção.
No estudo de fase 2 em obesidade, os registros do clinicaltrials.gov já mostravam sinais nessa direção, em números pequenos: alodinia em 4 de 62 participantes (6,5%) no braço de 12 mg (nenhum caso no placebo) e hiperestesia em casos isolados. O mecanismo não está estabelecido.
O aumento de frequência cardíaca é um efeito esperado da classe dos agonistas de GLP-1 e foi descrito com retatrutida desde a fase 2: no NEJM 2023, os autores relatam aumentos dose-dependentes da frequência cardíaca, com pico na 24ª semana e declínio posterior. Os comunicados de fase 3 não detalharam a magnitude dessa variação; os valores do TRIUMPH-1 constam do artigo completo do NEJM.
Quanto a eventos cardíacos, os resultados do estudo de fase 2 depositados no clinicaltrials.gov registram eventos graves isolados — um prolongamento de QT (braço de 12 mg) e um caso de insuficiência cardíaca (braço de 8 mg) —, sem causalidade estabelecida e em amostra pequena. O TRIUMPH-3, conduzido em pacientes com doença cardiovascular estabelecida, não teve dados de arritmia detalhados no comunicado de julho de 2026.
O dado mais direto vem da fase 2 em obesidade, que testou a mesma dose de manutenção com dois pontos de partida. Pelos resultados depositados no clinicaltrials.gov:
| Braço (fase 2, obesidade) | Náusea | Vômito |
|---|---|---|
| Placebo (n=70) | 11,4% | 1,4% |
| 4 mg, início 2 mg (n=33) | 18,2% | 12,1% |
| 4 mg, início 4 mg (n=33) | 36,4% | 12,1% |
| 8 mg, início 2 mg (n=35) | 17,1% | 5,7% |
| 8 mg, início 4 mg (n=35) | 60,0% | 25,7% |
| 12 mg, início 2 mg (n=62) | 45,2% | 19,4% |
Os autores concluíram que os eventos gastrointestinais foram parcialmente mitigados com dose inicial menor (2 mg vs. 4 mg). O mesmo padrão apareceu na fase 2 em DM2: eventos gastrointestinais em 35% dos participantes com retatrutida, variando de 13% (0,5 mg) a 50% no braço de 8 mg com escalonamento rápido. Por isso, todo o programa de fase 3 usou início em 2 mg com aumentos a cada quatro semanas. O esquema dos protocolos está detalhado em doses e titulação da retatrutida nos estudos.
Os percentuais acima valem para um produto fabricado sob boas práticas, com dose conhecida, critérios de inclusão e exclusão e acompanhamento médico. Produtos vendidos como "retatrutida" fora de ensaio clínico não passaram por avaliação de nenhuma agência reguladora: não há garantia de identidade, concentração, esterilidade ou ausência de contaminantes, e eventos adversos não são acompanhados nem notificados de forma sistemática. Não é possível extrapolar o perfil de segurança dos estudos para esses produtos. Veja os riscos das canetas emagrecedoras irregulares e a situação da retatrutida na Anvisa.
Náusea, seguida de diarreia, constipação e vômito. No TRIUMPH-1, a náusea ocorreu em 28,6% a 42,4% dos participantes, conforme a dose, contra 14,8% com placebo.
Sim. Na fase 2, houve aumento dose-dependente, com pico em 24 semanas e redução depois. A relevância clínica de longo prazo ainda está em avaliação.
Uma alteração da sensibilidade da pele (ardor, sensação anormal ao toque). Foi mais frequente com doses maiores, em geral leve a moderada, e a maioria dos casos resolveu durante o tratamento.
Na dose de 12 mg, 11,3% no TRIUMPH-1, 7,7% no TRIUMPH-2, 13,5% no TRIUMPH-3 e 18,2% no TRIUMPH-4, contra 4% a 4,9% com placebo.
Não. Ela não tem aprovação em nenhum país. A Lilly informou que pretende submeter o pedido à FDA no primeiro trimestre de 2027. Acompanhe em quando a retatrutida chega ao Brasil.
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Equipe MedCode
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