Retatrutida: mortes notificadas ao FDA e o que se sabe
16 de outubro de 2026
7 minutos de leitura
Até meados de outubro de 2026, o FDA recebeu notificações de duas mortes envolvendo produtos vendidos como retatrutida (em inglês, retatrutide, apelidada de "Reta") obtidos fora de qualquer ensaio clínico, mas essas notificações não comprovam que o fármaco tenha causado os óbitos. A retatrutida, agonista triplo de GIP, GLP-1 e glucagon da Eli Lilly, segue em investigação e não é aprovada em nenhum país.
Importante: não existe retatrutida legalmente comercializada. Frascos vendidos como "Reta", "peptídeo para pesquisa" ou "not for human consumption" são produtos sem registro, de origem e conteúdo desconhecidos. Doses citadas aqui são apenas as dos protocolos de ensaios clínicos.
Os relatos foram obtidos pela CBS News via Lei de Acesso à Informação dos EUA (FOIA), com dados de identificação ocultados, e publicados em 13 de outubro de 2026:
O FDA não confirmou se verificou as informações de nenhum dos dois casos. A agência disse apenas que "revisa as notificações de eventos adversos, reunindo informações adicionais quando necessário". A CBS também não conseguiu verificá-los de forma independente.
Em reportagem de 15 de outubro de 2026, o Atlanta Journal-Constitution informou que o FDA tinha recebido mais de 70 notificações de eventos adversos envolvendo retatrutida desde 2024, a maioria em 2026. Entre elas havia quatro mortes em 2026, 40 outros casos classificados como graves e 24 internações. Náuseas e vômitos foram os problemas mais citados. Nos EUA, a America's Poison Centers registrou 862 exposições à retatrutida no trimestre encerrado em setembro de 2026, contra 460 no trimestre anterior e 249 no primeiro trimestre do ano.
O FAERS (FDA Adverse Event Reporting System), que o FDA hoje chama de AEMS (Adverse Event Monitoring System), é um banco de farmacovigilância passiva. Ele recebe notificações da indústria farmacêutica, de profissionais de saúde e de consumidores. O próprio FDA declara seus limites:
No caso da retatrutida, há um problema a mais: não se sabe o que havia nos frascos. O médico Pieter Cohen, de Harvard, defendeu à CBS que o FDA obtenha e analise as amostras usadas pelos dois pacientes.
| Evento | O que foi relatado | Fonte |
|---|---|---|
| Ruptura esofágica (Austrália, set/2026) | Vômitos incontroláveis com laceração do esôfago e internação. Na análise da TGA, o frasco não continha retatrutida, e sim semaglutida não declarada, em teor cerca de 8 vezes maior que o encontrado em produtos de semaglutida já avaliados pela agência. | TGA / ABC News |
| Diarreia intratável após dose duplicada (EUA) | Homem de 32 anos que, por esquecimento, repetiu a dose no dia seguinte. Teve até 30 evacuações por dia, desidratação e lesão renal aguda. Tratado com hidratação venosa, reposição de potássio e loperamida, recebeu alta no 4º dia com recuperação da função renal. | Ann Intern Med Clin Cases, 2026 |
O caso australiano mostra o principal ponto cego: o rótulo de um produto irregular não garante o princípio ativo. Testagem anterior da ABC com a Universidade de Queensland já havia encontrado frascos com dose muito acima da rotulada. Veja também o que se sabe sobre os frascos irregulares de 10, 40 e 60 mg.
Mesmo sem causalidade estabelecida, alguns mecanismos são coerentes com a farmacologia da classe:
Os dados de fase 3 abaixo são resultados topline divulgados pela Lilly e repercutidos pela imprensa médica, ainda sem publicação completa de todos os estudos.
| Estudo (80 semanas) | Dado de segurança | Placebo |
|---|---|---|
| TRIUMPH-1 (n = 2.339, obesidade sem diabetes) | Náusea 28,6% / 38,4% / 42,4% e vômitos 10,6% / 22,8% / 25,3% (4 / 9 / 12 mg). Descontinuação por evento adverso: 4,1% / 6,9% / 11,3%. Disestesia leve a moderada relatada. | Náusea 14,8%; vômitos 4,8%; descontinuação 4,9% |
| TRIUMPH-2 (n = 1.152, DM2 + obesidade/sobrepeso) | Descontinuação por evento adverso entre 3,8% e 11,6% nas doses de retatrutida | 4,9% |
| TRIUMPH-3 (n = 1.949, IMC ≥ 35 + doença cardiovascular) | Diarreia 30,1% / 24,4% (9 / 12 mg). Descontinuação por evento adverso de 13,5% com 12 mg. | Diarreia 8,7%; descontinuação 4,8% |
No TRIUMPH-3, a análise de eventos cardiovasculares maiores não mostrou diferença estatisticamente significativa: MACE-5 com HR de 0,82 (IC 95% 0,55–1,22) e MACE-3 com HR de 1,12 (IC 95% 0,64–1,96). Segundo a Lilly, eventos cardíacos graves "ocorreram com menos frequência do que o previsto". Esses números vêm de participantes selecionados e monitorados, com produto de qualidade controlada e escalonamento de dose, e não se aplicam a frascos de origem desconhecida. Detalhes em efeitos colaterais da retatrutida nos estudos TRIUMPH.
Em página atualizada em 1º de outubro de 2026, o FDA afirma que a retatrutida não pode ser usada em manipulação pela lei federal americana. A agência enviou cartas de advertência a empresas de telessaúde, distribuidores de insumo e outsourcing facilities e recomenda não comprar produtos rotulados "para pesquisa" ou "não para consumo humano". A Lilly declarou que as mortes notificadas "deixam claro que as duas pessoas usavam retatrutida do mercado paralelo" e informou que move ações judiciais contra vendedores irregulares. O pedido de registro ao FDA está previsto para o 1º trimestre de 2027; veja quando a retatrutida pode chegar ao Brasil.
Não há como afirmar. As notificações ao FAERS não são verificadas, e não se sabe o que continham os frascos usados. A causalidade não foi estabelecida.
A CBS divulgou dois casos detalhados (julho e setembro de 2026). O AJC informou quatro mortes entre mais de 70 notificações recebidas pelo FDA desde 2024. Nenhuma relação causal foi confirmada.
Nos ensaios, os principais eventos adversos foram gastrointestinais e dependentes da dose, com descontinuação maior que no placebo nas doses altas. O risco do produto vendido sem registro é diferente e maior, porque seu conteúdo e sua dose são desconhecidos.
Suspender o produto, avaliar volemia, eletrólitos e função renal, hidratar e notificar. Sinais de alarme exigem pronto-atendimento.
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Autor do conteúdo
Equipe MedCode
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