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    Asundexian Reduz Recorrência de AVC Não-Cardioembólico — OCEANIC-STROKE

    06 de outubro de 2026

    5 minutos de leitura

    Pergunta:

    • O asundexian, inibidor do Fator XIa, reduz a recorrência de AVC isquêmico em pacientes com AVC não-cardioembólico recente ou AIT de alto risco, sem aumentar o risco de sangramento maior?

    Background:

    • Tentativas anteriores de associar terapia antitrombótica mais potente à antiagregação padrão para prevenção secundária de AVC não-cardioembólico esbarraram sistematicamente no aumento do risco de sangramento. O Fator XIa participa da amplificação da coagulação patológica (trombose), mas tem papel secundário na hemostasia fisiológica (interrupção de sangramento) — tornando seus inibidores candidatos a anticoagulação com menor risco hemorrágico. O OCEANIC-STROKE testou o asundexian, em cima da antiagregação padrão, nessa população.

    Desenho do Estudo:

    • Ensaio clínico randomizado de fase 3 (OCEANIC-STROKE), dirigido por número de eventos

    • Multicêntrico e internacional: 702 centros em 37 países (incluindo o Brasil)

    • Duplo-cego, controlado por placebo

    • Recrutamento: janeiro/2023 a fevereiro/2025

    • Patrocinado pela indústria (Bayer)

    População:

    • Pacientes com AVC isquêmico não-cardioembólico recente ou AIT de alto risco

    Critérios de Inclusão:

    • AVC isquêmico agudo não-cardioembólico (NIHSS ≤15, com sinais persistentes ≥24h ou infarto cerebral agudo em imagem) OU AIT de alto risco (resolução de sintomas em <24h, escore ABCD2 ≥6, sem AVC agudo em imagem)

    • Randomização dentro de 72 horas do início dos sintomas (se trombolise ou trombectomia prévia, só após >24h do procedimento, com imagem excluindo hemorragia)

    • Evidência de aterosclerose cerebrovascular, história de doença aterosclerótica (coronariana, periférica, carotídea) ou infarto agudo não-lacunar em imagem

    Critérios de Exclusão:

    • Fibrilação atrial, válvula mecânica ou outra fonte cardioembólica conhecida

    • Qualquer indicação concomitante de anticoagulação

    • Sangramento ativo não trivial; AVC prévio há <1 semana; dependência funcional prévia relevante (mRS ≥4)

    Intervenção:

    • Asundexian 50 mg, via oral, 1x/dia, adicionado à terapia antiplaquetária padrão (simples ou dupla, a critério do investigador — cerca de dois terços dos pacientes em dupla antiagregação)

    • Acompanhamento mediano de 567 dias (~19 meses)

    Controle:

    • Placebo, sobre a mesma terapia antiplaquetária de base

    Desfechos:

    • Primário de eficácia: tempo até o primeiro AVC isquêmico recorrente

    • Primário de segurança: sangramento maior pelo critério ISTH

    Características dos Pacientes:

    Masculino (66% Masculino)Feminino (34% Feminino)
    Masculino
    Feminino
    • N total: 12.327 (6.162 asundexian / 6.165 placebo)

    • Idade média: 68 anos

    • Evento índice: AVC em 95%, AIT de alto risco em 5%

    • Subtipo: aterosclerose de grandes artérias 43%, oclusão de pequenos vasos 22%, causa indeterminada 31%

    • NIHSS mediano: 2 (maioria com déficit leve)

    • Trombolise IV prévia em 20%; terapia endovascular em 4%

    Resultados:

    • Eficácia (AVC isquêmico recorrente): incidência cumulativa de 6,2% com asundexian vs. 8,4% com placebo (taxa de 4,4 vs. 6,0 por 100 pessoas-ano). HR 0,74 (IC95% 0,65–0,84; p<0,001) — redução de risco relativo de aproximadamente 26%.

    • Segurança (sangramento maior ISTH): incidência cumulativa de 1,9% com asundexian vs. 1,7% com placebo (taxa de 1,6 vs. 1,5 por 100 pessoas-ano). HR 1,10 (IC95% 0,85–1,44) — sem aumento estatisticamente significativo, embora o ponto estimado seja numericamente um pouco maior no braço ativo (o intervalo de confiança cruza 1).

    • Desfechos secundários: morte cardiovascular/IAM/AVC (composto) 6,6 vs. 9,0/100 pessoas-ano, HR 0,83 (IC95% 0,74–0,92; p<0,001). Morte por AVC ou AVC incapacitante: 1,4 vs. 2,1/100 pessoas-ano, HR 0,69 (IC95% 0,55–0,87) — redução de ~30% em AVC fatal/incapacitante. Mortalidade por qualquer causa: sem diferença (HR 0,98; IC95% 0,83–1,17).

    • Hemorragia intracraniana sintomática: 0,6 vs. 0,5/100 pessoas-ano (HR 1,15; IC95% 0,74–1,80) — sem diferença significativa.

    • Evento adverso sério: 19,2% (asundexian) vs. 19,5% (placebo) — perfil geral semelhante entre os grupos.

    Conclusões:

    • O asundexian, adicionado à terapia antiplaquetária padrão, reduziu a recorrência de AVC isquêmico em pacientes com AVC não-cardioembólico recente ou AIT de alto risco, sem aumento estatisticamente significativo de sangramento maior — um resultado que contrasta com tentativas anteriores de intensificar a antitrombose nessa população.

    Pontos Fortes:

    • Amostra muito grande (N=12.327), desenho event-driven multinacional (37 países, incluindo o Brasil)

    • Desfechos primários de eficácia e segurança pré-especificados, com intervalos de confiança estreitos e p<0,001 no desfecho primário

    • Coerência entre o desfecho primário e desfechos secundários relacionados (composto CV, AVC incapacitante/fatal)

    • Seguimento mediano de ~19 meses, relativamente longo para esse desfecho vascular agudo

    Pontos Fracos:

    • Poucos pacientes com AVC mais grave (NIHSS ≥8) ou AIT de alto risco — resultado pode não generalizar totalmente para apresentações mais graves

    • Sub-representação de pacientes negros na amostra

    • Ponto estimado de sangramento maior numericamente mais alto no braço ativo (ainda que não significativo) — a leitura correta é "sem aumento significativo", não "sem nenhum risco adicional"

    • Necessário seguimento mais longo para confirmar durabilidade do benefício e segurança de sangramento a longo prazo

    Contexto Regulatório:

    • O asundexian ainda não foi aprovado por nenhuma agência regulatória (FDA, EMA ou ANVISA). A Bayer declarou que vai "engajar com autoridades regulatórias" para submissão em futuro próximo, sem data confirmada.

    • Não confundir com o OCEANIC-AF, outro trial do próprio asundexian (fibrilação atrial, comparador ativo = apixabana), interrompido precocemente em 2023 por inferioridade de eficácia — um resultado negativo, de população e desenho diferentes do OCEANIC-STROKE.

    • O concorrente de classe milvexian (Bristol Myers Squibb/Janssen) segue em estudo equivalente para AVC (LIBREXIA-STROKE), ainda sem resultado — seu programa para síndrome coronariana aguda (LIBREXIA-ACS) já foi encerrado por falta de eficácia.

    Referência:

    • Sharma M, Shoamanesh A, et al. Asundexian for Secondary Stroke Prevention (OCEANIC-STROKE). N Engl J Med. 2026 Apr 15. DOI: 10.1056/NEJMoa2513880.



    Autor do conteúdo

    Equipe MedCode


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    Públicação Oficial


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