Triagem para Helicobacter pylori como Prevenção para o Câncer Gástrico
20 de fevereiro de 2025
7 minutos de leitura
O convite para realizar triagem para Helicobacter pylori (H. pylori) combinada ao teste imunológico fecal (FIT) reduz a incidência e mortalidade por câncer gástrico em comparação com o FIT isolado?
O câncer gástrico é uma das principais causas de mortalidade global, e a infecção por H. pylori desempenha um papel significativo em sua etiologia. Erradicar H. pylori tem se mostrado uma estratégia eficaz na prevenção de lesões pré-cancerígenas. Porém, a realização de rastreio populacional de H. pylori ainda não é justificada pela falta de estudos comprovando a eficácia dessa estratégia. Este estudo avalia o impacto de uma triagem para H. pylori associada ao FIT em reduzir a incidência e a mortalidade do câncer gástrico.
Ensaio clínico randomizado pragmático.
Multicêntrico, em 51 unidades de cuidados primários em 26 municípios no Condado de Changhua, Taiwan.
Não-cegado.
Randomização na proporção 1:1.
Estimou-se que o seguimento por aproximadamente 5,5 anos de 30.000 participantes por grupo seriam necessários para detectar uma redução de risco de 37% na incidência de câncer gástrico com um poder de 80% e um erro alfa unicaudal de 0,05.
Análise post hoc incluiu a estratificação dos resultados por subgrupos de risco baseados em histórico familiar de câncer gástrico, presença de lesões pré-cancerígenas diagnosticadas previamente e adesão à erradicação de H. pylori.
Indivíduos de 50 a 69 anos recrutados entre 2014 e 2018 em Taiwan.
Idade entre 50 e 69 anos.
Ausência de sintomas sugestivos de câncer colorretal.
História de câncer gástrico ou outras neoplasias.
Gestantes.
Condições médicas graves.
Convite para realizar triagem combinada: FIT + Detecção de antígeno fecal de H. pylori (HPSA).
Triagem padrão para câncer colorretal com avaliação para H. pylori.
Terapia antibiótica para erradicação de H. pylori em casos positivos com novo teste em 6 a 8 semanas para checar erradicação.
Convite para realizar triagem com teste imunológico fecal (FIT) isolado.
Triagem padrão para câncer colorretal sem avaliação para H. pylori.
Primário: incidência e mortalidade por câncer gástrico.
Secundários: incidência e mortalidade por câncer colorretal.
Post hoc: análise do impacto da triagem em subgrupos de alto risco (histórico familiar e presença de lesões pré-cancerígenas), avaliação da eficácia em relação à adesão ao tratamento.
MasculinoFeminino
63.508 pacientes foram convidados para realizar o rastreio com HPSA+FIT, 31.497 (49,6%) participaram de fato.
88.995 pacientes foram convidados para realizar o rastreio com FIT, 31.777 (35,7%) participaram de fato.
63.274 Pacientes | Feminino 58,46% e Masculino 41,53%
HPSA+FIT (N = 31.497) x FIT (N = 31.777)
Idade média (anos): 58,1 x 58,6
Sexo Feminino (%): 58,6 x 58,3
Hábitos sociais (%):
Fumantes: 13,4 x 9,4
Consumo regular de álcool: 6,7 x 3,2
Consumo regular de noz-de-areca: 3,2 x 2,0
Histórico médico (%):
Primeira triagem com FIT: 59,3 x 42,1
Histórico familiar de úlcera péptica: 5,5 x 3,3
Histórico familiar de câncer gástrico: 1,5 x 1,1
Infecção por H. pylori: 1,2 x 0,8
Uso de medicamentos (%):
Anti-hipertensivos: 11,1 x 3,6
Uso de anti-inflamatórios não esteroides: 8,7 x 5,5
Antidiabéticos: 7,3 x 7,7
Uso de antiagregantes ou anticoagulantes: 1,5 x 1,4
Houve redução na incidência de câncer gástrico no grupo que rastreou H. pylori ajustando os achados para a taxa de não-adesão e para fatores confundidores, mas não houve redução na mortalidade.
Incidência de câncer gástrico:
Considerando todos os pacientes convidados a realizarem o rastreio: não houve diferença na análise não ajustada (RR 0,86; IC95%: 0,68 a 1,10), com diferença significativa na análise ajustada (RR ajustado: 0,79; IC95%: 0,63 a 0,98; p=0,04). A taxa cumulativa foi de 0,22% no grupo intervenção vs. 0,27% no controle.
Considerando apenas os pacientes que participaram do rastreio: houve redução significativa tanto na análise não ajustada (RR 0,68; IC95%: 0,47 a 0,99) quanto na análise ajustada (RR ajustado: 0,58; IC95%: 0,42 a 0,78).
O ajuste para a taxa de não-adesão teve como objetivo reduzir o viés de autosseleção.
Mortalidade por câncer gástrico:
Considerando todos os pacientes convidados a realizarem o rastreio: não houve diferença na análise não ajustada (RR 1,12; IC95%: 0,77 a 1,62), nem na análise ajustada (RR ajustado: 1,02; IC95%: 0,73 a 1,40; p=0,91).
Considerando apenas os pacientes que participaram do rastreio: não houve redução significativa na análise não ajustada (RR 0,61; IC95%: 0,33 a 1,14) mas houve redução na análise ajustada (RR ajustado: 0,50; IC95%: 0,32 a 0,78).
Análise post hoc:
Subgrupos com histórico familiar apresentaram maior benefício na redução da incidência de câncer gástrico (RR ajustado: 0,70; IC95%: 0,50 a 0,89).
Adesão total à terapia associou-se a uma redução mais pronunciada na incidência (RR ajustado: 0,65; IC95%: 0,49-0,85).
Houve alta taxa de erradicação de H. pylori (91,9%).
Câncer colorretal: nenhuma diferença significativa observada entre os grupos.
Conclusões
O convite para realizar triagem para Helicobacter pylori (H. pylori) combinada ao teste imunológico fecal (FIT) reduziu a incidência de câncer gástrico em subgrupos de alto risco. No entanto, o impacto na mortalidade por câncer gástrico não foi significativo.
Ponto a Ponto
Ensaio clínico randomizado multicêntrico com um grande poder amostral (30.000 participantes por grupo), o que aumenta a confiabilidade dos resultados.
Aborda uma questão importante de saúde pública, já que o câncer gástrico é uma das principais causas de mortalidade por câncer, e a infecção por H. pylori é um fator de risco modificável.
Incluiu análises post hoc estratificadas por histórico familiar de câncer gástrico e adesão ao tratamento, o que permite identificar populações que mais se beneficiam da intervenção.
A taxa de erradicação de H. pylori foi de 91,9%, indicando que a intervenção foi bem aceita e implementada.
Utilizou registros nacionais de saúde e mortalidade de Taiwan, o que aumenta a confiabilidade dos dados de desfechos.
Análise que simula a vida real. A análise primária considerou todos os pacientes convidados a realizarem o rastreio e não somente aqueles que a realizaram.
O estudo foi não-cegado, o que pode introduzir viés de desempenho ou detecção, especialmente em estudos pragmáticos.
Apesar da redução na incidência de câncer gástrico, não houve diferença significativa na mortalidade, o que limita a interpretação do impacto clínico real.
O estudo foi realizado em Taiwan, onde a prevalência de H. pylori e câncer gástrico é alta. Os resultados podem não ser diretamente aplicáveis a populações com menor prevalência.
O seguimento médio de 5,5 anos pode ser insuficiente para avaliar completamente o impacto da intervenção na mortalidade por câncer gástrico, visto a progressão lenta de tal câncer.
Autor do conteúdo
Beatriz Vilaça
Referências
Públicação Oficial
https://app.doctodoc.com.br/conteudos/triagem-para-helicobacter-pylori-como-prevencao-para-o-cancer-gastrico
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