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    Estratégia Transfusional Restritiva ou Liberal em Hemorragia Subaracnóidea Aneurismática.

    04 de fevereiro de 2025

    8 minutos de leitura

    Pergunta:

    • A estratégia transfusional liberal melhora o desfecho neurológico funcional em comparação à estratégia transfusional restritiva em pacientes com HSA aneurismática e anemia?

    Background:

    • A hemorragia subaracnóidea (HSA) aneurismática é uma condição grave, em que a mortalidade pode chegar até 66,7% e entre os sobreviventes, apenas 1/3 apresentam recuperação total. A anemia ocorre em mais de 50% desses pacientes e está associada a pior prognóstico. A anemia pode exacerbar dano neurológico precoce e tardio por diminuição do débito de oxigênio para o tecido cerebral. Embora a transfusão de hemácias possa aumentar o débito de oxigênio, a melhora clínica ainda é incerta, e as evidências disponíveis quanto à transfusão sanguínea nesses casos são limitadas. Neste sentido, o estudo SAHARA foi realizado com o intuito de avaliar o impacto das estratégias restritiva e liberal no desfecho neurológico dos pacientes com HSA aneurismática. 

    Desenho do estudo:

    • Ensaio clínico randomizado, 

    • Multicêntrico envolvendo 23 centros especializados em cuidado com neurocríticos no Canadá, Austrália e Estados Unidos

    • Aberto, com desfecho cegado

    • Randomização na proporção de 1:1 em blocos de 4 e 6 e estratificado de acordo com o centro

    • Foi estimada uma amostra de 740 pacientes para um poder estatístico de 80% e um nível de significância de 0,05 para detectar uma redução relativa de 25% no desfecho primário, assumindo uma incidência de 40% de desfecho neurológico funcional desfavorável em 12 meses no grupo controle, incluindo 3% de perda de segmento.

    População:

    • Pacientes com HSA aneurismática incluídos entre 2015 e 2023

    Critérios de inclusão:

    • Idade ≥ 18 anos

    • Primeiro episódio de HSA aneurismática

    • Hb ≤ 10,0 g/dL

    • Pacientes nos primeiros 10 dias de admissão

    Critérios de exclusão:

    • Hemorragia não aneurismática

    • Sangramento ativo com instabilidade hemodinâmica

    • Contraindicação a transfusão

    • HSA secundária a aneurisma micótico, infundíbulo ou malformações vasculares

    Intervenção:

    • Estratégia transfusional restritiva

    • Transfusão se Hb < 10,0 mg/dL

    Controle:

    • Estratégia transfusional liberal

    • Transfusão se Hb < 8,0 g/dL

    Outros tratamentos:

    • A estratégia transfusional era aplicada nos primeiros 21 dias contados a partir da apresentação hospitalar, ou até o óbito ou alta hospitalar se ocorressem antes desse período.

    Desfechos:

    • Primário: desfecho neurológico funcional desfavorável (mRS ≥ 4) em 12 meses

    • Secundários: medida de Independência Funcional (FIM) em 12 meses, qualidade de vida em 12 meses pelo EQ-5D-5L, escala visual analógica (VAS) em 12 meses, vasoespasmo radiográfico, isquemia cerebral tardia em 21 dias, novo infarto cerebral

    • Terciários: níveis diários mais baixos de Hb em 21 dias, Proporção de pacientes que receberam transfusão, Necessidade e duração de ventilação mecânica, tempo de internação, eventos adversos relacionados à transfusão nos primeiros 28 dias de internação.

    Características dos pacientes:

     

    Masculino (18.3% Masculino)Feminino (81.7% Feminino)
    Masculino
    Feminino

     

    • Liberal (N=366) x Restritiva (N=366)

    • Idade média em anos: 59,3 x 59,5

    • Comorbidades

      • HAS: 44% x 48,4%

      • Tabagismo ativo ou prévio: 33,615 x 40,7%

      • Cardiopatia isquêmica: 0,8% x 0,8%

      • IC: 4,1% x 7,7%

      • AVCi: 1,9% x 3,8%

      • DRC terminal: 0,3% x 0%

      • Anemia crônica: 5,5% x 6,3%

    • Mediana da escala de Fisher Modificada: 4 x 4

    • Escala de Fisher Modificada

      • 4: 62,6% x 62,0%

      • 3: 20% x 18,8%

      • 2: 11,2% x 9,6%

      • 1: 6% x 9%

    • Mediada na escala WFNS: 3 x 3

    • Score WFNS

      • 5: 24% x 19,7%

      • 4: 24% x 30%

      • 3: 7,9% x 8,2%

      • 2: 17,8% x 16,4%

      • 1: 26,2% x 25,7%

    • Tratamento do aneurisma

      • Endovascular: 59,6% x 61,5%

      • Cirúrgico: 41,3% x 38,3%

      • Não tratado: 1,4% x 1,6%

    • Transfusão prévia: 10,9% x 7,7%

    • Média de Hb (g/dL) na randomização: 9,4 x 9,3

    Resultados:

    • Não houve diferença na incidência de desfecho funcional desfavorável em 12 meses entre a estratégia liberal e a estratégia restritiva: 33,5% x 37,7% (RR 0,88; IC 95% 0,72 a 1,09)

     

     

    • Não houve diferença na independência funcional (score FIM) em 12 meses entre os grupos: 82,8 x 79,8 (DA 3,01; IC 95% -5,49 a 11,51)

    • Não houve diferença na qualidade de vida em 12 meses pelo EQ-5D-5L entre os grupos: 0,5 x 0,5 (DA 0; IC 95% -0,04 a 0,09)

    • Não houve diferença em sintomas subjetivos em 12 meses pela escala visual analógica (VAS) entre os grupos: 52,1 x 50,0 (DA 2,08; IC 95% -3,76 a 7,93)

    • Não houve diferença na mortalidade em 12 meses entre os grupos: 27,2 x 27,1 (RR 0,99; IC 95% 0,77 a 1,44)

    • Não houve diferença na incidência de nova isquemia cerebral tardia em 21 dias entre os grupos: 17,5% x 19,9% (RR 0,88; IC 95% 0,64 a 1,21)

    • Não houve diferença na incidência de novo infarto cerebral entre os grupos: 15,9% x 17,8% (RR 0,98; IC 95% 0,63 a 1,26)

    • Houve menor incidência de vasoespasmo radiográfico no grupo liberal em comparação ao grupo restritivo: 31,5% x 40,7% (RR 0,77; IC 95% 0,63 a 0,95)

    • Houve mais transfusão sanguínea no grupo Liberal em comparação ao restritivo: 99,7% x 35% (RR 2,86; IC 95% 2,42 a 3,38)

    • Não houve diferença na mediana de tempo de ventilação mecânica entre os grupos: 3 x 3,5 (DA 0,51; IC 95% -0,86 a 1,88)

    • Não houve diferença na mediana de tempo de internação hospitalar entre os grupos: 27 x 26 (DA 0,65; IC 95% -2,3 a 3,6)

    • Não houve diferença na mediana de tempo de internação em UTI entre os grupos: 17 x 17 (DA 0; IC 95% -1,9 a 2,0)

    • Não houve diferença na incidência de eventos adversos graves relacionados à transfusão entre os grupos

    Conclusões:

    • Em pacientes com HSA aneurismática e anemia, uma estratégia transfusional liberal não reduz risco de pior desfecho neurológico funcional em 12 meses em comparação à estratégia restritiva

    Pontos fortes 

    • Ensaio clínico randomizado

    • Desfechos primário e secundários clinicamente relevantes

    • Estudo com mínima perda de seguimento dos pacientes randomizados

    • Ensaio clínico pragmático, refletindo melhor a prática clínica do dia a dia.

    Pontos Fracos

    • O tempo de recrutamento do estudo foi muito prolongado, incluindo 742 pacientes entre 2015 e 2023, o que daria em média 4 pacientes por centro em cada ano, o que é uma taxa de recrutamento muito baixa para a HSA aneurismática em centros especializados em neurocríticos. A baixa taxa de randomização pode significar viés de seleção

    • O longo período de recrutamento, 8 anos, pode introduzir viés temporal. Nesse período fatores externos como por exemplo avanços no tratamento e mudanças de diretrizes possam interferir nos cuidados dos pacientes.

    • Devido a natureza da intervenção, o estudo não foi cegado, o que pode incluir viés de performance e observação

    • Embora multicêntrico, o estudo envolveu apenas países desenvolvidos, o que não permite a aplicabilidade dos resultados obtidos em países com menos desenvolvimento socioeconômico


    Autor do conteúdo

    Guilherme Lemos


    Referências

    Públicação Oficial

    https://app.doctodoc.com.br/conteudos/estrategia-transfusional-restritiva-ou-liberal-em-hemorragia-subaracnoidea-aneurismatica


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